terça-feira, 28 de outubro de 2008

Pagando um mico

Para se ter uma idéia de como existem pobres no Brasil basta prestar atenção às gírias que vêm sendo utilizadas ultimamente: tem gente aos montes "pagando um pau" ou "pagando um mico". E uma coisa nada tem a ver com a outra. "Paga um pau" quem tem inveja de outra pessoa que está (ou pensa que está) se destacando por algum motivo; "paga um mico" quem, como eu, se expõe ao ridículo por força das circunstâncias. Mas, em ambos os casos alguém está sempre pagando alguma coisa...

Pois bem, um dia desses eu comentava sobre o "mico" que eu tenho que pagar toda vez que preciso fazer compras no supermercado e alguém sugeriu que eu incluísse um capítulo sobre esse fato aqui. Eu mesmo não acho muito interessante, porém, aqui vai:

Uma das dificuldades do pobre é não poder morar muito próximo de um supermercado. Dá até para morar perto de um empório, de um "mercadinho", mas não de um supermercado de verdade, daqueles que têm um monte de corredores compridos, cheios de gôndolas abarrotadas de produtos que enchem a boca de água, daqueles que nós, pobres, precisamos. Sim, precisamos. Pode reparar que é nos grandes supermercados que os pobres se concentram, por vários motivos: 1º) são esses supermercados que mandam colocar em nossos portões aqueles folhetos cheios de ofertas todos os dias e prometem cobrir os preços dos concorrentes; 2º) é lá que encontramos os melhores carrinhos para carregar as compras; 3º) é só neles que encontramos temperaturas mais agradáveis, graças ao ar condicionado, ou pelo menos junto dos alimentos que exigem refrigeração, especialmente peixes (apesar do cheiro, é onde é mais fresquinho). O ruim é a distância que temos que percorrer para chegar até eles e, pior, para voltar de lá com as compras.



Desde que me tornei um pobre convicto, tenho morado há cerca de um quilômetro e meio do supermercado mais próximo. No começo isso me pareceu muito difícil, pois os saquinhos, antes resistentes, perderam a qualidade, tornaram-se mais frágeis, mais finos, e quase chegavam a cortar minhas mãos, devido ao peso, ou se rompiam antes que eu completasse o percurso de volta à minha casa. Não culpo seus fabricantes, isso certamente foi uma estratégia dos supermercados para reduzir os custos e, conseqüentemente, melhorar suas condições de competitividade. Talvez nem tenham imaginado que tal medida os levaria a vender mais. Ainda bem que alguém percebeu essa vantagem e resolveu substituir as embalagens de vidro pelas de plástico, que não quebram tanto. Mesmo assim, era preciso tomar cuidado com os ovos e frutas como o mamão.

Carregar as compras em saquinhos por um quilômetro e meio não é tarefa das mais fáceis nem mesmo para os pobres. Por menos que gastemos num supermercado, é mais vantajoso comprar um saco de cinco quilos de arroz do que um pacote pequeno, de um ou dois quilos. E não importa a marca do arroz, cinco quilos são cinco quilos.

Você faz uma compra de pobre: arroz, feijão, açúcar, pó de café (se sobrar dinheiro), óleo, ovos, leite (de vez em quando), salsichas... Enfim, gasta todo seu dinheiro e vai ter que sair dali carregando uns vinte quilos. E é aí que a coisa pega...

Pra começo de conversa, rico não vai a supermercado. Quem está lá não é rico. A maioria é de classe média: tem uma casinha média, um carro médio, um emprego médio e ganha um salário médio.

Você nota um pobre quando ele pára num cruzamento de corredores, exatamente onde uma pilha de caixas foi deixada por um repositor que precisou ir ao banheiro, e começa a procurar alguma coisa no forro do supermercado, ou encontra um amigo que não via há muito tempo e quer colocar o papo em dia. Outra forma de reconhecer um pobre é quando você tem o azar de escolher uma fila onde, bem à sua frente, na hora de pagar a conta, o sujeito tira do bolso um calhamaço de folhetos dos supermercados concorrentes para provar que eles estão oferecendo produtos mais baratos e, assim, conseguir os descontos prometidos. Detalhe: esse sujeito só comprou o que estava nos folhetos promocionais, portanto, todas as ofertas precisam ser mostradas. Durante pelo menos meia-hora você ficará como um boi no corredor do matadouro, sem poder ir para frente ou para trás. O casal que está atrás de você com uma criança dentro do carrinho (chorando, porque quer levar o chiclete que está no display ao lado do caixa) fica discutindo se deve ou não buscar aquela tijela de "prástico" que está em promoção, lá no fundo do supermercado. Ela acha que a oportunidade é imperdível, e ele, que é uma bobagem. Nervoso, o marido "balança" o carrinho deles com o pé, para acalmar o filho, e dá constantes "trombadinhas" no seu. E você, que não tem nada a ver com aquilo, é convidado a opinar sobre o impasse.

Finalmente, o cara que estava empacando a fila recolhe todos os folhetos, dobra-os e os recoloca no bolso, saindo dali com aquele sorriso de quem conseguiu quebrar o supermercado. Coincidentemente, o ar condicionado é desligado naquele momento, e não há janelas abertas para permitir a circulação do ar.

"— O senhor vai querer a nota fiscal paulista, com o seu CPF?" - pergunta a moça do caixa. Meu humor me faz responder: "— Ponha o seu, se quiser."

Esta é a parte mais fácil da aventura. Resta levar as compras até minha casa.

A primeira saída para não machucar as mãos foi levar comigo um cabo de vassoura. Eu o escondia no estacionamento para tê-lo quando saísse. Com paciência, distribuía os saquinhos de forma a equilibrar o peso ao longo do pedaço de pau para que me fosse possível carregá-lo. Quando a compra era maior, eu o trazia nos ombros, como um chinês, com os saquinhos contrabalançando as duas extremidades. Geralmente eu deixava para ir ao supermercado no final do expediente, quando as pessoas preferem estar em casa, o que me deixava menos exposto à observação.

Isso funcionou durante mais de um ano, até que me mudei para outro bairro e comecei a fazer compras num supermercado que oferecia o serviço de entrega em domicílio. O problema é que a entrega só era gratuita quando o valor da compra ultrapassava os cem reais, e isto nunca acontecia.

Numa certa noite, como chovia, gastei cerca de setenta reais e consegui pagar uma tarifa menor de entrega. Havia uma vantagem extra: eu poderia ir junto com as compras. Foi a única vez. Usando um engradado como banco, durante todo o percurso precisei equilibrar as caixas empilhadas ao meu lado na Kombi abarrotada e com cheiro de fim de feira. Não pensei que pudesse ficar pior, mas, pouco tempo depois, a tarifa passou a ser cobrada indiscriminadamente, e subiu, igualando-se ao valor de um táxi. Que luxo.

Felizmente, num outro dia, o garoto que recolhia os carrinhos deixados na rua me deu uma dica: "— Se o senhor mora aqui perto, leve o carrinho! Só não conte a ninguém que fui eu quem lhe deu esta sugestão. Depois o senhor devolve ou, se quiser, pode dar um sumiço nele."

Sou pobre, mas sou honesto, oras! Jamais teria coragem de surrupiar um carrinho de supermercado. Na verdade, achei que não teria coragem sequer para usá-lo no transporte. Porém, o fiz, e comecei a pagar os micos...

Esses carrinhos são relativamente silenciosos quando deslizam no piso polido dos supermercados, mas são extremamente barulhentos quando empurrados sobre as calçadas irregulares ou no asfalto desgastado das ruas do bairro onde moro. Além disso, há um shopping center entre o supermercado e minha casa. É necessário atravessar o estacionamento, a menos que eu me disponha a um constrangimento ainda maior seguindo pela avenida marginal. É uma experiência cruel.

"— E aí, amigão, não está encontrando vaga?" – diz um motorista engraçadinho. "— Cuidado, hein? Não vai arranhar o meu carro com o seu!" – diz outro. A maioria apenas olha com certa indignação. Pior é quando as pessoas abrem as janelas de suas casas ou vão até os portões para ver o que está acontecendo... E a ladeira? Sim, há uma ladeira... Nela a força motriz tem que ser maior. Há o peso das compras e o peso do carrinho, com o agravante das rodas presas, sempre com pedaços de barbante ou embalagens enroscadas.

Há quem ria de tudo isso. Eu não me importo, já me acostumei. Há uma compensação: não preciso freqüentar uma academia.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

2. Diferenças entre pobres e mendigos


As pessoas costumam confundir pobres e mendigos. E os mendigos, por sua vez, acham que pelo fato de serem pobres precisam ter o aspecto repulsivo causado pela falta de asseio, o que não é uma necessidade, porém ajuda na coleta de esmolas. Não há problema, eles o fazem mais por escolha própria do que pela falta de um lugar para tomar banho e lavar suas roupas. Nunca vi um mendigo pedir um sabonete, uma toalha velha ou um aparelho de barbear quando bate à porta de alguém, nem tampouco para usar a mangueira de jardim, exceto para matar sua sede.

"Sou pobre, mas sou limpinho", diria um pobre de espírito. E desde quando a pobreza impede o asseio pessoal ou do lugar onde moramos? Isso é uma questão de higiene.

A pior categoria de pobres é a dos pobres de espírito. É a classe que nasceu pobre e vai morrer pobre, não se interessa pelo que pode melhorar suas vidas. Vão vivendo um dia depois do outro na mesmice em que se conhecem. Sua frase mais comum: "Fazer o quê? A vida é assim mesmo..."

Posso garantir que a pobreza não impede ninguém de se misturar aos ricos sem ser apontado por sua diferença social. Tudo que você tem a fazer é agir como se fosse rico. De preferência, com mais categoria. Por exemplo: evite as gargalhadas, isso impedirá que as pessoas contem as obturações que você tem nos dentes; fale baixo, os outros pensarão que você está tratando de assuntos importantes ou que eles estão cometendo alguma gafe, tornando-se alvos de comentários seus. Nesse cenário, o asseio é fundamental. Você pode estar de calça jeans e camiseta, mas precisa ter classe. E sua roupa pode estar rasgada - é moda! -, mas limpa. Cuide para que seus cabelos permaneçam penteados, mesmo que como um moicano, se possível com gel.

Há duas coisas que as pessoas observam para medir sua riqueza: o relógio e os sapatos. Por isso, mantenha os calçados engraxados, evite os tênis nessas situações, e não use um relógio barato. Você pode alegar que não gosta de relógios. Se você é um mendigo, quando pedir esmolas, peça o restinho do perfume do dono da casa, aquele finzinho de frasco que ele não vai usar. Se a quantidade for insuficiente para cobrir seu corpo, use-a nas mãos. Você vai deixar seu rastro quando cumprimentar os outros. Pode acrescentar um pouco de água, mas deixe para passá-lo em cima da hora.

Todo pobre conhece alguém que pertence à categoria dos privilegiados. Manter uma lista de nomes, endereços e telefones desses sujeitos pode ser útil. Às vezes sobra uma roupinha em bom estado, um sapato com furo na sola (ninguém vê se você não levantar o pé), um cinto de couro que não cabe mais na cintura... Se você é pobre, na sua vai caber. E ajuda.

Pobres não precisam ser ignorantes. Ler é bom. Pare numa banca de jornais, leia pelo menos as manchetes, folheie revistas como se fosse comprá-las, procure assimilar informações sobre o que está acontecendo no mundo, garanta os assuntos que vai discutir com aquela gente. Entre numa loja ou supermercado e pare na seção de eletrônicos. Assista um pouco de TV, veja os noticiários enquanto finge escolher seu modelo preferido.

Mantenha-se altivo. Em suas caminhadas, procure olhar para o alto, jamais para o chão. Andar de cabeça baixa dá a impressão de fracasso. Observe o movimento das nuvens, as copas das árvores, os passarinhos voando... Se alguém perguntar o que está olhando, diga que está avaliando a poluição da cidade. Esta prática vai fazer com que se sinta melhor. Basta observar as crianças, elas não choram olhando para cima. Aprendi isto com um amigo pobre.

"Os olhos são a janela da alma", e convém mantê-los abertos e não desviá-los dos olhares de outras pessoas. Ao contrário, sempre olhe nos olhos de seus interlocutores. Isso mostra segurança. Mas, cuidado, dependendo da intensidade e da direção do seu olhar, você corre o risco de arrumar encrenca. Portanto, seja discreto.

Devemos encarar a pobreza como circunstância, não como destino. Isto vale também para os mendigos, cuja condição pode ser passageira desde que trabalhem sua própria imagem, seu Ego e amor-próprio. Se não podemos mudar a circunstância, é preciso ser pobre com estilo.

1. Adquirindo a "SPA"

Ao contrário de países que têm a miséria desde sua origem, o Brasil se transformou num dos maiores produtores de pobres do mundo moderno, e escolheu a pior época de sua história para fazê-lo: durante a minha existência. Isto elimina completamente o suspense deste capítulo, pois atualmente, para ser vítima da Síndrome de Pobreza Adquirida, em tese, basta ser brasileiro. Não dá nem para florear. É assim: se você tem algum dinheiro, isto já basta para estar no grupo de risco. Sem exagero, falo por experiência própria. E acredito que ninguém melhor do que uma vítima da SPA para falar sobre este assunto.

Não nasci rico, mas também nunca estive na miséria até o final dos anos noventa, quando dois importantes fenômenos aconteceram para mudar minha vida para sempre. O primeiro se manifestou aos poucos, sem que eu o percebesse, evoluindo a cada ano, sileciosamente. Começaram a surgir em maior quantidade fios de cabelo branco em áreas da minha cabeça que até então permaneciam cobertas, o que indicava a aproximação do que antigamente chamávamos de "meia-idade", condição que hoje é mais conhecida como morte profissional. O segundo veio de repente com a ruptura do casamento.

Faz-se necessário esclarecer que casamento não se dissolve, não se extingüe, não se desfaz, apenas se interrompe. Você suspende os efeitos do casamento, mas não se livra deles, está sujeito a ser tratado como marido a qualquer momento, se for conveniente para a ex-esposa, principalmente durante o processo de separação ou divórcio e enquanto não for nomeado um substituto.

Voltando ao primeiro fenômeno: as idades que recebem a terminação "enta", e suas derivadas (enta e um, enta e dois, etc.) são, inexplicavelmente, as maiores causas da morte profissional ameaçando até os que ainda estão mais distantes delas, na classe do "inta" (dos 30 aos 39 anos).

Ao revelar qualquer idade que se enquadre nessa faixa, o homem - especialmente - desce a uma condição inferior perante interlocutores mais jovens, e passa a ser visto por eles como "o velho".

— Pô, cara, você viu? O velho chega aqui querendo que eu saiba tudo que ele precisa saber! Tá pensando o quê? Que eu tenho a idade dele?

Este comportamento hostil é a primeira investida para levar alguém à morte profissional. Ser chamado de "velho" por alguém que tem dez anos menos que você provoca uma sensação que parece cada vez mais ridícula à medida que você se torna mais velho. E se torna mais absurda ainda quando se é casado com uma mulher dez anos mais moça. Mas, isto também será motivo de comentários durante uma longa fase de sua vida, até que ambos sejam realmente velhos e a diferença não seja notada.

O peso desse tratamento não é tão grande quando a palavra "velho" é substituída por outras, de conotação mais carinhosa, como "tio". Aliás, este é um exemplo que surge mais cedo na vida do homem. E, não raro, pode vir até de pessoas mais velhas:

— Ô, tio, posso tomar conta do seu carro?

Aí começam as vantagens de ser pobre: "— Não tenho carro, meu filho!" - respondo sarcasticamente.

Quanto ao segundo fenômeno - a ruptura do casamento -, este dispensaria explicações, todo mundo sabe que as mulheres conseguem sair de um relacionamento com uma larga margem de vantagem sobre seu parceiro. Entretanto, justifica-se uma abordagem deste tema, no meu caso, dada a sua importância para que eu me transformasse num pobre. Até porque tenho mais experiência que muitos neste aspecto, pois já enfrentei duas separações.

Há outros meios para se tornar pobre, e eles serão, merecidamente, abordados ao longo deste trabalho. Entre eles está a pseudo-bondade, que é fruto de uma confusão mental que nos faz acreditar que a generosidade nos assegura um lugar especial no céu, para depois de nossa passagem, levando-nos a poupar o sacrifício de terceiros e nos entregar totalmente às suas conveniências.

Convido-os a continuar a leitura nos próximos capítulos.

0. Quarenta é o limite. Mas, de quê?

Quando eu era jovem ouvia os mais velhos dizendo que a vida começava aos quarenta. Muita coisa mudou desde então: valores, conceitos, hábitos, leis, a educação, o ensino, a condição da mulher em relação à sociedade, o sistema de governo... E, é claro, eu e minha idade. Talvez acreditasse realmente que minha vida teria um começo verdadeiro quando alcançasse a marca dos quarenta anos, embora não estivesse insatisfeito com o que já vivera antes deles. Me casei, experimentei a paternidade duas vezes, me separei, perdi três empregos, e me via cada vez mais experiente e com mais coragem para recomeçar sempre que fosse preciso.

A vida, no entanto, é surpreendente. Ela nos reserva surpresas que jamais sonhamos.

Aos quarenta anos eu deveria ter alcançado minha plenitude profissional e emocional, a estabilidade financeira e a tranqüilidade necessárias para dar às minhas filhas a segurança que nos falta quando ingressamos na fase adulta, quando preparamo-nos para enfrentar a concorrência do mercado de trabalho, esforçamo-nos para conquistar um diploma universitário e começamos a enfrentar sozinhos novos desafios. No entanto, aos quarenta anos eu havia acabado de me separar, dei início a um arrojado projeto comercial sem ter um centavo, fui morar numa obra inacabada, tive meu carro roubado e descobri que meu maior erro foi ter ultrapassado a marca dos trinta e cinco sem chegar a lugar algum. Ou melhor, na verdade consegui realizar muitos planos antes disto, mas, graças aos princípios morais e à sensibilidade que me foram transmitidos, me tornei um sujeito generoso e permiti que levassem tudo. Afinal, eu acreditava que poderia reconquistar tudo outra vez.

De acordo com os conceitos de antigamente, os homens assumiam todas as obrigações da família enquanto as mulheres, dependentes deles, cuidavam das tarefas domésticas, mas, com todo o conforto os homens pudessem lhes proporcionar, incluindo no mínimo uma empregada. Não sei quem inventou isso. Aprendemos que os índios saem para caçar e suas mulheres fazem todo o trabalho pesado. Por que não seguimos essa tradição?

Bem, as mulheres declararam sua independência, e o fizeram em todos os sentidos. Conquistaram o mercado de trabalho, até nas mais estranhas profissões, aceitaram salários mais baixos, decretaram a liberdade de fazer o que quisessem sem dar satisfação a ninguém e assumiram o controle, sem esquecer o remoto – da TV. Pregavam a igualdade dos sexos, mas defenderam somente aquilo que lhes era conveniente, as vantagens. No restante continuaram esperando que abríssemos a porta do carro e lhes cedêssemos o agasalho nas tardes de frio, que nos lembrássemos de todas as datas comemorativas e tivéssemos disposição para ir ao supermercado aos sábados, que cuidássemos da manutenção doméstica e do carro para que elas pudessem curtir seus passeios com as amigas. Não importa se passaram dos quarenta, elas souberam se impor.

Pelas leis trabalhistas da época em que comecei a trabalhar, eu devia estar aposentado desde os 48 anos. As leis foram alteradas para que isto se torne impossível em qualquer idade. Acho que devo dar graças a Deus, pois eu morreria de tédio se não tivesse o que fazer.

É importante que a vida não seja monótona, não vire uma rotina sem paixão. É fundamental alimentar sonhos e esperanças, definir novas metas e lutar para alcançá-las, e pretendo fazer isto até o fim dos meus dias. Mas, deixam?

Não consigo entender o desprezo dos mais jovens pelos que acumularam experiências fantásticas e podem lhes ensinar alguns segredos. No meu tempo, quando um idoso entrava num ônibus não lhe faltava lugar. Hoje vejo a garotada usando fones de ouvido e mochila nas costas, mantendo seus olhos fechados, fingindo que não enxergam os que já têm seus cabelos brancos. E não pára por aí. Gerentes de Recursos Humanos já foram bem francos me dizendo que não há vagas para quem tem mais de 35 anos, a menos que seja para funções secundárias, com salários irrisórios, pois "aposentados não precisam ganhar bem".

A grande virada depende de cada um de nós. "O caminho é a autonomia", dizem os especialistas recomendando que todos se transformem em consultores e palestrantes. Porém, esquecem que o mercado é limitado. Além disso, é necessário mais que a simples vontade para tanto, é preciso ter talento, perfil, conhecimento, ousadia, preparo, desinibição e mais uma tonelada de qualidades que não se adquire da noite para o dia. Profissionais são forjados ao longo de uma vida, não nascem prontos.
O mais importante é que nos sintamos jovens por mais tempo, jamais velhos demais para recomeçar ou continuar trilhando o caminho que escolhemos. Temos que manter nossas cabeças funcionando, despertar nossa criatividade para podermos inventar ou reinventar alguma coisa.

Não é preciso usar peruca ou pintar os cabelos, fazer uma cirurgia plástica ou usar roupas que nos deixem ridículos, basta nos sentirmos bem com o que somos e fazemos. E amarmos isso.

A vida pode começar aos quarenta, aos cinqüenta, aos oitenta... Quem renasce é você, com a vantagem de não ter que esperar nove meses. A vida começa todos os dias, sempre com mais bagagem. Por isso, que se danem os jovens com sua empáfia, sua cegueira, sua ambição. Eles que quebrem a cara. Um dia chegarão aos quarenta, e pode ser que encontrem as mesmas dificuldades que estão criando hoje para nós, os "velhos", mas com pelo menos uma desvantagem: sem conhecer os valores e conceitos que se perderam entre nossas gerações. Pois, se hoje são assim é porque nós os fizemos desse jeito, escondendo deles o que nos era mais valioso.