quarta-feira, 10 de setembro de 2008

1. Adquirindo a "SPA"

Ao contrário de países que têm a miséria desde sua origem, o Brasil se transformou num dos maiores produtores de pobres do mundo moderno, e escolheu a pior época de sua história para fazê-lo: durante a minha existência. Isto elimina completamente o suspense deste capítulo, pois atualmente, para ser vítima da Síndrome de Pobreza Adquirida, em tese, basta ser brasileiro. Não dá nem para florear. É assim: se você tem algum dinheiro, isto já basta para estar no grupo de risco. Sem exagero, falo por experiência própria. E acredito que ninguém melhor do que uma vítima da SPA para falar sobre este assunto.

Não nasci rico, mas também nunca estive na miséria até o final dos anos noventa, quando dois importantes fenômenos aconteceram para mudar minha vida para sempre. O primeiro se manifestou aos poucos, sem que eu o percebesse, evoluindo a cada ano, sileciosamente. Começaram a surgir em maior quantidade fios de cabelo branco em áreas da minha cabeça que até então permaneciam cobertas, o que indicava a aproximação do que antigamente chamávamos de "meia-idade", condição que hoje é mais conhecida como morte profissional. O segundo veio de repente com a ruptura do casamento.

Faz-se necessário esclarecer que casamento não se dissolve, não se extingüe, não se desfaz, apenas se interrompe. Você suspende os efeitos do casamento, mas não se livra deles, está sujeito a ser tratado como marido a qualquer momento, se for conveniente para a ex-esposa, principalmente durante o processo de separação ou divórcio e enquanto não for nomeado um substituto.

Voltando ao primeiro fenômeno: as idades que recebem a terminação "enta", e suas derivadas (enta e um, enta e dois, etc.) são, inexplicavelmente, as maiores causas da morte profissional ameaçando até os que ainda estão mais distantes delas, na classe do "inta" (dos 30 aos 39 anos).

Ao revelar qualquer idade que se enquadre nessa faixa, o homem - especialmente - desce a uma condição inferior perante interlocutores mais jovens, e passa a ser visto por eles como "o velho".

— Pô, cara, você viu? O velho chega aqui querendo que eu saiba tudo que ele precisa saber! Tá pensando o quê? Que eu tenho a idade dele?

Este comportamento hostil é a primeira investida para levar alguém à morte profissional. Ser chamado de "velho" por alguém que tem dez anos menos que você provoca uma sensação que parece cada vez mais ridícula à medida que você se torna mais velho. E se torna mais absurda ainda quando se é casado com uma mulher dez anos mais moça. Mas, isto também será motivo de comentários durante uma longa fase de sua vida, até que ambos sejam realmente velhos e a diferença não seja notada.

O peso desse tratamento não é tão grande quando a palavra "velho" é substituída por outras, de conotação mais carinhosa, como "tio". Aliás, este é um exemplo que surge mais cedo na vida do homem. E, não raro, pode vir até de pessoas mais velhas:

— Ô, tio, posso tomar conta do seu carro?

Aí começam as vantagens de ser pobre: "— Não tenho carro, meu filho!" - respondo sarcasticamente.

Quanto ao segundo fenômeno - a ruptura do casamento -, este dispensaria explicações, todo mundo sabe que as mulheres conseguem sair de um relacionamento com uma larga margem de vantagem sobre seu parceiro. Entretanto, justifica-se uma abordagem deste tema, no meu caso, dada a sua importância para que eu me transformasse num pobre. Até porque tenho mais experiência que muitos neste aspecto, pois já enfrentei duas separações.

Há outros meios para se tornar pobre, e eles serão, merecidamente, abordados ao longo deste trabalho. Entre eles está a pseudo-bondade, que é fruto de uma confusão mental que nos faz acreditar que a generosidade nos assegura um lugar especial no céu, para depois de nossa passagem, levando-nos a poupar o sacrifício de terceiros e nos entregar totalmente às suas conveniências.

Convido-os a continuar a leitura nos próximos capítulos.

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