quarta-feira, 10 de setembro de 2008

0. Quarenta é o limite. Mas, de quê?

Quando eu era jovem ouvia os mais velhos dizendo que a vida começava aos quarenta. Muita coisa mudou desde então: valores, conceitos, hábitos, leis, a educação, o ensino, a condição da mulher em relação à sociedade, o sistema de governo... E, é claro, eu e minha idade. Talvez acreditasse realmente que minha vida teria um começo verdadeiro quando alcançasse a marca dos quarenta anos, embora não estivesse insatisfeito com o que já vivera antes deles. Me casei, experimentei a paternidade duas vezes, me separei, perdi três empregos, e me via cada vez mais experiente e com mais coragem para recomeçar sempre que fosse preciso.

A vida, no entanto, é surpreendente. Ela nos reserva surpresas que jamais sonhamos.

Aos quarenta anos eu deveria ter alcançado minha plenitude profissional e emocional, a estabilidade financeira e a tranqüilidade necessárias para dar às minhas filhas a segurança que nos falta quando ingressamos na fase adulta, quando preparamo-nos para enfrentar a concorrência do mercado de trabalho, esforçamo-nos para conquistar um diploma universitário e começamos a enfrentar sozinhos novos desafios. No entanto, aos quarenta anos eu havia acabado de me separar, dei início a um arrojado projeto comercial sem ter um centavo, fui morar numa obra inacabada, tive meu carro roubado e descobri que meu maior erro foi ter ultrapassado a marca dos trinta e cinco sem chegar a lugar algum. Ou melhor, na verdade consegui realizar muitos planos antes disto, mas, graças aos princípios morais e à sensibilidade que me foram transmitidos, me tornei um sujeito generoso e permiti que levassem tudo. Afinal, eu acreditava que poderia reconquistar tudo outra vez.

De acordo com os conceitos de antigamente, os homens assumiam todas as obrigações da família enquanto as mulheres, dependentes deles, cuidavam das tarefas domésticas, mas, com todo o conforto os homens pudessem lhes proporcionar, incluindo no mínimo uma empregada. Não sei quem inventou isso. Aprendemos que os índios saem para caçar e suas mulheres fazem todo o trabalho pesado. Por que não seguimos essa tradição?

Bem, as mulheres declararam sua independência, e o fizeram em todos os sentidos. Conquistaram o mercado de trabalho, até nas mais estranhas profissões, aceitaram salários mais baixos, decretaram a liberdade de fazer o que quisessem sem dar satisfação a ninguém e assumiram o controle, sem esquecer o remoto – da TV. Pregavam a igualdade dos sexos, mas defenderam somente aquilo que lhes era conveniente, as vantagens. No restante continuaram esperando que abríssemos a porta do carro e lhes cedêssemos o agasalho nas tardes de frio, que nos lembrássemos de todas as datas comemorativas e tivéssemos disposição para ir ao supermercado aos sábados, que cuidássemos da manutenção doméstica e do carro para que elas pudessem curtir seus passeios com as amigas. Não importa se passaram dos quarenta, elas souberam se impor.

Pelas leis trabalhistas da época em que comecei a trabalhar, eu devia estar aposentado desde os 48 anos. As leis foram alteradas para que isto se torne impossível em qualquer idade. Acho que devo dar graças a Deus, pois eu morreria de tédio se não tivesse o que fazer.

É importante que a vida não seja monótona, não vire uma rotina sem paixão. É fundamental alimentar sonhos e esperanças, definir novas metas e lutar para alcançá-las, e pretendo fazer isto até o fim dos meus dias. Mas, deixam?

Não consigo entender o desprezo dos mais jovens pelos que acumularam experiências fantásticas e podem lhes ensinar alguns segredos. No meu tempo, quando um idoso entrava num ônibus não lhe faltava lugar. Hoje vejo a garotada usando fones de ouvido e mochila nas costas, mantendo seus olhos fechados, fingindo que não enxergam os que já têm seus cabelos brancos. E não pára por aí. Gerentes de Recursos Humanos já foram bem francos me dizendo que não há vagas para quem tem mais de 35 anos, a menos que seja para funções secundárias, com salários irrisórios, pois "aposentados não precisam ganhar bem".

A grande virada depende de cada um de nós. "O caminho é a autonomia", dizem os especialistas recomendando que todos se transformem em consultores e palestrantes. Porém, esquecem que o mercado é limitado. Além disso, é necessário mais que a simples vontade para tanto, é preciso ter talento, perfil, conhecimento, ousadia, preparo, desinibição e mais uma tonelada de qualidades que não se adquire da noite para o dia. Profissionais são forjados ao longo de uma vida, não nascem prontos.
O mais importante é que nos sintamos jovens por mais tempo, jamais velhos demais para recomeçar ou continuar trilhando o caminho que escolhemos. Temos que manter nossas cabeças funcionando, despertar nossa criatividade para podermos inventar ou reinventar alguma coisa.

Não é preciso usar peruca ou pintar os cabelos, fazer uma cirurgia plástica ou usar roupas que nos deixem ridículos, basta nos sentirmos bem com o que somos e fazemos. E amarmos isso.

A vida pode começar aos quarenta, aos cinqüenta, aos oitenta... Quem renasce é você, com a vantagem de não ter que esperar nove meses. A vida começa todos os dias, sempre com mais bagagem. Por isso, que se danem os jovens com sua empáfia, sua cegueira, sua ambição. Eles que quebrem a cara. Um dia chegarão aos quarenta, e pode ser que encontrem as mesmas dificuldades que estão criando hoje para nós, os "velhos", mas com pelo menos uma desvantagem: sem conhecer os valores e conceitos que se perderam entre nossas gerações. Pois, se hoje são assim é porque nós os fizemos desse jeito, escondendo deles o que nos era mais valioso.

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