Para se ter uma idéia de como existem pobres no Brasil basta prestar atenção às gírias que vêm sendo utilizadas ultimamente: tem gente aos montes "pagando um pau" ou "pagando um mico". E uma coisa nada tem a ver com a outra. "Paga um pau" quem tem inveja de outra pessoa que está (ou pensa que está) se destacando por algum motivo; "paga um mico" quem, como eu, se expõe ao ridículo por força das circunstâncias. Mas, em ambos os casos alguém está sempre pagando alguma coisa...
Pois bem, um dia desses eu comentava sobre o "mico" que eu tenho que pagar toda vez que preciso fazer compras no supermercado e alguém sugeriu que eu incluísse um capítulo sobre esse fato aqui. Eu mesmo não acho muito interessante, porém, aqui vai:
Uma das dificuldades do pobre é não poder morar muito próximo de um supermercado. Dá até para morar perto de um empório, de um "mercadinho", mas não de um supermercado de verdade, daqueles que têm um monte de corredores compridos, cheios de gôndolas abarrotadas de produtos que enchem a boca de água, daqueles que nós, pobres, precisamos. Sim, precisamos. Pode reparar que é nos grandes supermercados que os pobres se concentram, por vários motivos: 1º) são esses supermercados que mandam colocar em nossos portões aqueles folhetos cheios de ofertas todos os dias e prometem cobrir os preços dos concorrentes; 2º) é lá que encontramos os melhores carrinhos para carregar as compras; 3º) é só neles que encontramos temperaturas mais agradáveis, graças ao ar condicionado, ou pelo menos junto dos alimentos que exigem refrigeração, especialmente peixes (apesar do cheiro, é onde é mais fresquinho). O ruim é a distância que temos que percorrer para chegar até eles e, pior, para voltar de lá com as compras.

Desde que me tornei um pobre convicto, tenho morado há cerca de um quilômetro e meio do supermercado mais próximo. No começo isso me pareceu muito difícil, pois os saquinhos, antes resistentes, perderam a qualidade, tornaram-se mais frágeis, mais finos, e quase chegavam a cortar minhas mãos, devido ao peso, ou se rompiam antes que eu completasse o percurso de volta à minha casa. Não culpo seus fabricantes, isso certamente foi uma estratégia dos supermercados para reduzir os custos e, conseqüentemente, melhorar suas condições de competitividade. Talvez nem tenham imaginado que tal medida os levaria a vender mais. Ainda bem que alguém percebeu essa vantagem e resolveu substituir as embalagens de vidro pelas de plástico, que não quebram tanto. Mesmo assim, era preciso tomar cuidado com os ovos e frutas como o mamão.
Carregar as compras em saquinhos por um quilômetro e meio não é tarefa das mais fáceis nem mesmo para os pobres. Por menos que gastemos num supermercado, é mais vantajoso comprar um saco de cinco quilos de arroz do que um pacote pequeno, de um ou dois quilos. E não importa a marca do arroz, cinco quilos são cinco quilos.
Você faz uma compra de pobre: arroz, feijão, açúcar, pó de café (se sobrar dinheiro), óleo, ovos, leite (de vez em quando), salsichas... Enfim, gasta todo seu dinheiro e vai ter que sair dali carregando uns vinte quilos. E é aí que a coisa pega...
Pra começo de conversa, rico não vai a supermercado. Quem está lá não é rico. A maioria é de classe média: tem uma casinha média, um carro médio, um emprego médio e ganha um salário médio.
Você nota um pobre quando ele pára num cruzamento de corredores, exatamente onde uma pilha de caixas foi deixada por um repositor que precisou ir ao banheiro, e começa a procurar alguma coisa no forro do supermercado, ou encontra um amigo que não via há muito tempo e quer colocar o papo em dia. Outra forma de reconhecer um pobre é quando você tem o azar de escolher uma fila onde, bem à sua frente, na hora de pagar a conta, o sujeito tira do bolso um calhamaço de folhetos dos supermercados concorrentes para provar que eles estão oferecendo produtos mais baratos e, assim, conseguir os descontos prometidos. Detalhe: esse sujeito só comprou o que estava nos folhetos promocionais, portanto, todas as ofertas precisam ser mostradas. Durante pelo menos meia-hora você ficará como um boi no corredor do matadouro, sem poder ir para frente ou para trás. O casal que está atrás de você com uma criança dentro do carrinho (chorando, porque quer levar o chiclete que está no display ao lado do caixa) fica discutindo se deve ou não buscar aquela tijela de "prástico" que está em promoção, lá no fundo do supermercado. Ela acha que a oportunidade é imperdível, e ele, que é uma bobagem. Nervoso, o marido "balança" o carrinho deles com o pé, para acalmar o filho, e dá constantes "trombadinhas" no seu. E você, que não tem nada a ver com aquilo, é convidado a opinar sobre o impasse.
Finalmente, o cara que estava empacando a fila recolhe todos os folhetos, dobra-os e os recoloca no bolso, saindo dali com aquele sorriso de quem conseguiu quebrar o supermercado. Coincidentemente, o ar condicionado é desligado naquele momento, e não há janelas abertas para permitir a circulação do ar.
"— O senhor vai querer a nota fiscal paulista, com o seu CPF?" - pergunta a moça do caixa. Meu humor me faz responder: "— Ponha o seu, se quiser."
Esta é a parte mais fácil da aventura. Resta levar as compras até minha casa.
A primeira saída para não machucar as mãos foi levar comigo um cabo de vassoura. Eu o escondia no estacionamento para tê-lo quando saísse. Com paciência, distribuía os saquinhos de forma a equilibrar o peso ao longo do pedaço de pau para que me fosse possível carregá-lo. Quando a compra era maior, eu o trazia nos ombros, como um chinês, com os saquinhos contrabalançando as duas extremidades. Geralmente eu deixava para ir ao supermercado no final do expediente, quando as pessoas preferem estar em casa, o que me deixava menos exposto à observação.
Isso funcionou durante mais de um ano, até que me mudei para outro bairro e comecei a fazer compras num supermercado que oferecia o serviço de entrega em domicílio. O problema é que a entrega só era gratuita quando o valor da compra ultrapassava os cem reais, e isto nunca acontecia.
Numa certa noite, como chovia, gastei cerca de setenta reais e consegui pagar uma tarifa menor de entrega. Havia uma vantagem extra: eu poderia ir junto com as compras. Foi a única vez. Usando um engradado como banco, durante todo o percurso precisei equilibrar as caixas empilhadas ao meu lado na Kombi abarrotada e com cheiro de fim de feira. Não pensei que pudesse ficar pior, mas, pouco tempo depois, a tarifa passou a ser cobrada indiscriminadamente, e subiu, igualando-se ao valor de um táxi. Que luxo.
Felizmente, num outro dia, o garoto que recolhia os carrinhos deixados na rua me deu uma dica: "— Se o senhor mora aqui perto, leve o carrinho! Só não conte a ninguém que fui eu quem lhe deu esta sugestão. Depois o senhor devolve ou, se quiser, pode dar um sumiço nele."
Sou pobre, mas sou honesto, oras! Jamais teria coragem de surrupiar um carrinho de supermercado. Na verdade, achei que não teria coragem sequer para usá-lo no transporte. Porém, o fiz, e comecei a pagar os micos...
Esses carrinhos são relativamente silenciosos quando deslizam no piso polido dos supermercados, mas são extremamente barulhentos quando empurrados sobre as calçadas irregulares ou no asfalto desgastado das ruas do bairro onde moro. Além disso, há um shopping center entre o supermercado e minha casa. É necessário atravessar o estacionamento, a menos que eu me disponha a um constrangimento ainda maior seguindo pela avenida marginal. É uma experiência cruel.
"— E aí, amigão, não está encontrando vaga?" – diz um motorista engraçadinho. "— Cuidado, hein? Não vai arranhar o meu carro com o seu!" – diz outro. A maioria apenas olha com certa indignação. Pior é quando as pessoas abrem as janelas de suas casas ou vão até os portões para ver o que está acontecendo... E a ladeira? Sim, há uma ladeira... Nela a força motriz tem que ser maior. Há o peso das compras e o peso do carrinho, com o agravante das rodas presas, sempre com pedaços de barbante ou embalagens enroscadas.
Há quem ria de tudo isso. Eu não me importo, já me acostumei. Há uma compensação: não preciso freqüentar uma academia.
Pois bem, um dia desses eu comentava sobre o "mico" que eu tenho que pagar toda vez que preciso fazer compras no supermercado e alguém sugeriu que eu incluísse um capítulo sobre esse fato aqui. Eu mesmo não acho muito interessante, porém, aqui vai:
Uma das dificuldades do pobre é não poder morar muito próximo de um supermercado. Dá até para morar perto de um empório, de um "mercadinho", mas não de um supermercado de verdade, daqueles que têm um monte de corredores compridos, cheios de gôndolas abarrotadas de produtos que enchem a boca de água, daqueles que nós, pobres, precisamos. Sim, precisamos. Pode reparar que é nos grandes supermercados que os pobres se concentram, por vários motivos: 1º) são esses supermercados que mandam colocar em nossos portões aqueles folhetos cheios de ofertas todos os dias e prometem cobrir os preços dos concorrentes; 2º) é lá que encontramos os melhores carrinhos para carregar as compras; 3º) é só neles que encontramos temperaturas mais agradáveis, graças ao ar condicionado, ou pelo menos junto dos alimentos que exigem refrigeração, especialmente peixes (apesar do cheiro, é onde é mais fresquinho). O ruim é a distância que temos que percorrer para chegar até eles e, pior, para voltar de lá com as compras.

Desde que me tornei um pobre convicto, tenho morado há cerca de um quilômetro e meio do supermercado mais próximo. No começo isso me pareceu muito difícil, pois os saquinhos, antes resistentes, perderam a qualidade, tornaram-se mais frágeis, mais finos, e quase chegavam a cortar minhas mãos, devido ao peso, ou se rompiam antes que eu completasse o percurso de volta à minha casa. Não culpo seus fabricantes, isso certamente foi uma estratégia dos supermercados para reduzir os custos e, conseqüentemente, melhorar suas condições de competitividade. Talvez nem tenham imaginado que tal medida os levaria a vender mais. Ainda bem que alguém percebeu essa vantagem e resolveu substituir as embalagens de vidro pelas de plástico, que não quebram tanto. Mesmo assim, era preciso tomar cuidado com os ovos e frutas como o mamão.
Carregar as compras em saquinhos por um quilômetro e meio não é tarefa das mais fáceis nem mesmo para os pobres. Por menos que gastemos num supermercado, é mais vantajoso comprar um saco de cinco quilos de arroz do que um pacote pequeno, de um ou dois quilos. E não importa a marca do arroz, cinco quilos são cinco quilos.
Você faz uma compra de pobre: arroz, feijão, açúcar, pó de café (se sobrar dinheiro), óleo, ovos, leite (de vez em quando), salsichas... Enfim, gasta todo seu dinheiro e vai ter que sair dali carregando uns vinte quilos. E é aí que a coisa pega...
Pra começo de conversa, rico não vai a supermercado. Quem está lá não é rico. A maioria é de classe média: tem uma casinha média, um carro médio, um emprego médio e ganha um salário médio.
Você nota um pobre quando ele pára num cruzamento de corredores, exatamente onde uma pilha de caixas foi deixada por um repositor que precisou ir ao banheiro, e começa a procurar alguma coisa no forro do supermercado, ou encontra um amigo que não via há muito tempo e quer colocar o papo em dia. Outra forma de reconhecer um pobre é quando você tem o azar de escolher uma fila onde, bem à sua frente, na hora de pagar a conta, o sujeito tira do bolso um calhamaço de folhetos dos supermercados concorrentes para provar que eles estão oferecendo produtos mais baratos e, assim, conseguir os descontos prometidos. Detalhe: esse sujeito só comprou o que estava nos folhetos promocionais, portanto, todas as ofertas precisam ser mostradas. Durante pelo menos meia-hora você ficará como um boi no corredor do matadouro, sem poder ir para frente ou para trás. O casal que está atrás de você com uma criança dentro do carrinho (chorando, porque quer levar o chiclete que está no display ao lado do caixa) fica discutindo se deve ou não buscar aquela tijela de "prástico" que está em promoção, lá no fundo do supermercado. Ela acha que a oportunidade é imperdível, e ele, que é uma bobagem. Nervoso, o marido "balança" o carrinho deles com o pé, para acalmar o filho, e dá constantes "trombadinhas" no seu. E você, que não tem nada a ver com aquilo, é convidado a opinar sobre o impasse.
Finalmente, o cara que estava empacando a fila recolhe todos os folhetos, dobra-os e os recoloca no bolso, saindo dali com aquele sorriso de quem conseguiu quebrar o supermercado. Coincidentemente, o ar condicionado é desligado naquele momento, e não há janelas abertas para permitir a circulação do ar.
"— O senhor vai querer a nota fiscal paulista, com o seu CPF?" - pergunta a moça do caixa. Meu humor me faz responder: "— Ponha o seu, se quiser."
Esta é a parte mais fácil da aventura. Resta levar as compras até minha casa.
A primeira saída para não machucar as mãos foi levar comigo um cabo de vassoura. Eu o escondia no estacionamento para tê-lo quando saísse. Com paciência, distribuía os saquinhos de forma a equilibrar o peso ao longo do pedaço de pau para que me fosse possível carregá-lo. Quando a compra era maior, eu o trazia nos ombros, como um chinês, com os saquinhos contrabalançando as duas extremidades. Geralmente eu deixava para ir ao supermercado no final do expediente, quando as pessoas preferem estar em casa, o que me deixava menos exposto à observação.Isso funcionou durante mais de um ano, até que me mudei para outro bairro e comecei a fazer compras num supermercado que oferecia o serviço de entrega em domicílio. O problema é que a entrega só era gratuita quando o valor da compra ultrapassava os cem reais, e isto nunca acontecia.
Numa certa noite, como chovia, gastei cerca de setenta reais e consegui pagar uma tarifa menor de entrega. Havia uma vantagem extra: eu poderia ir junto com as compras. Foi a única vez. Usando um engradado como banco, durante todo o percurso precisei equilibrar as caixas empilhadas ao meu lado na Kombi abarrotada e com cheiro de fim de feira. Não pensei que pudesse ficar pior, mas, pouco tempo depois, a tarifa passou a ser cobrada indiscriminadamente, e subiu, igualando-se ao valor de um táxi. Que luxo.
Felizmente, num outro dia, o garoto que recolhia os carrinhos deixados na rua me deu uma dica: "— Se o senhor mora aqui perto, leve o carrinho! Só não conte a ninguém que fui eu quem lhe deu esta sugestão. Depois o senhor devolve ou, se quiser, pode dar um sumiço nele."
Sou pobre, mas sou honesto, oras! Jamais teria coragem de surrupiar um carrinho de supermercado. Na verdade, achei que não teria coragem sequer para usá-lo no transporte. Porém, o fiz, e comecei a pagar os micos...
Esses carrinhos são relativamente silenciosos quando deslizam no piso polido dos supermercados, mas são extremamente barulhentos quando empurrados sobre as calçadas irregulares ou no asfalto desgastado das ruas do bairro onde moro. Além disso, há um shopping center entre o supermercado e minha casa. É necessário atravessar o estacionamento, a menos que eu me disponha a um constrangimento ainda maior seguindo pela avenida marginal. É uma experiência cruel.
"— E aí, amigão, não está encontrando vaga?" – diz um motorista engraçadinho. "— Cuidado, hein? Não vai arranhar o meu carro com o seu!" – diz outro. A maioria apenas olha com certa indignação. Pior é quando as pessoas abrem as janelas de suas casas ou vão até os portões para ver o que está acontecendo... E a ladeira? Sim, há uma ladeira... Nela a força motriz tem que ser maior. Há o peso das compras e o peso do carrinho, com o agravante das rodas presas, sempre com pedaços de barbante ou embalagens enroscadas.
Há quem ria de tudo isso. Eu não me importo, já me acostumei. Há uma compensação: não preciso freqüentar uma academia.