
As pessoas costumam confundir pobres e mendigos. E os mendigos, por sua vez, acham que pelo fato de serem pobres precisam ter o aspecto repulsivo causado pela falta de asseio, o que não é uma necessidade, porém ajuda na coleta de esmolas. Não há problema, eles o fazem mais por escolha própria do que pela falta de um lugar para tomar banho e lavar suas roupas. Nunca vi um mendigo pedir um sabonete, uma toalha velha ou um aparelho de barbear quando bate à porta de alguém, nem tampouco para usar a mangueira de jardim, exceto para matar sua sede.
"Sou pobre, mas sou limpinho", diria um pobre de espírito. E desde quando a pobreza impede o asseio pessoal ou do lugar onde moramos? Isso é uma questão de higiene.
A pior categoria de pobres é a dos pobres de espírito. É a classe que nasceu pobre e vai morrer pobre, não se interessa pelo que pode melhorar suas vidas. Vão vivendo um dia depois do outro na mesmice em que se conhecem. Sua frase mais comum: "Fazer o quê? A vida é assim mesmo..."
Posso garantir que a pobreza não impede ninguém de se misturar aos ricos sem ser apontado por sua diferença social. Tudo que você tem a fazer é agir como se fosse rico. De preferência, com mais categoria. Por exemplo: evite as gargalhadas, isso impedirá que as pessoas contem as obturações que você tem nos dentes; fale baixo, os outros pensarão que você está tratando de assuntos importantes ou que eles estão cometendo alguma gafe, tornando-se alvos de comentários seus. Nesse cenário, o asseio é fundamental. Você pode estar de calça jeans e camiseta, mas precisa ter classe. E sua roupa pode estar rasgada - é moda! -, mas limpa. Cuide para que seus cabelos permaneçam penteados, mesmo que como um moicano, se possível com gel.
Há duas coisas que as pessoas observam para medir sua riqueza: o relógio e os sapatos. Por isso, mantenha os calçados engraxados, evite os tênis nessas situações, e não use um relógio barato. Você pode alegar que não gosta de relógios. Se você é um mendigo, quando pedir esmolas, peça o restinho do perfume do dono da casa, aquele finzinho de frasco que ele não vai usar. Se a quantidade for insuficiente para cobrir seu corpo, use-a nas mãos. Você vai deixar seu rastro quando cumprimentar os outros. Pode acrescentar um pouco de água, mas deixe para passá-lo em cima da hora.
Todo pobre conhece alguém que pertence à categoria dos privilegiados. Manter uma lista de nomes, endereços e telefones desses sujeitos pode ser útil. Às vezes sobra uma roupinha em bom estado, um sapato com furo na sola (ninguém vê se você não levantar o pé), um cinto de couro que não cabe mais na cintura... Se você é pobre, na sua vai caber. E ajuda.
Pobres não precisam ser ignorantes. Ler é bom. Pare numa banca de jornais, leia pelo menos as manchetes, folheie revistas como se fosse comprá-las, procure assimilar informações sobre o que está acontecendo no mundo, garanta os assuntos que vai discutir com aquela gente. Entre numa loja ou supermercado e pare na seção de eletrônicos. Assista um pouco de TV, veja os noticiários enquanto finge escolher seu modelo preferido.
Mantenha-se altivo. Em suas caminhadas, procure olhar para o alto, jamais para o chão. Andar de cabeça baixa dá a impressão de fracasso. Observe o movimento das nuvens, as copas das árvores, os passarinhos voando... Se alguém perguntar o que está olhando, diga que está avaliando a poluição da cidade. Esta prática vai fazer com que se sinta melhor. Basta observar as crianças, elas não choram olhando para cima. Aprendi isto com um amigo pobre.
"Os olhos são a janela da alma", e convém mantê-los abertos e não desviá-los dos olhares de outras pessoas. Ao contrário, sempre olhe nos olhos de seus interlocutores. Isso mostra segurança. Mas, cuidado, dependendo da intensidade e da direção do seu olhar, você corre o risco de arrumar encrenca. Portanto, seja discreto.
Devemos encarar a pobreza como circunstância, não como destino. Isto vale também para os mendigos, cuja condição pode ser passageira desde que trabalhem sua própria imagem, seu Ego e amor-próprio. Se não podemos mudar a circunstância, é preciso ser pobre com estilo.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
2. Diferenças entre pobres e mendigos
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1. Adquirindo a "SPA"
Ao contrário de países que têm a miséria desde sua origem, o Brasil se transformou num dos maiores produtores de pobres do mundo moderno, e escolheu a pior época de sua história para fazê-lo: durante a minha existência. Isto elimina completamente o suspense deste capítulo, pois atualmente, para ser vítima da Síndrome de Pobreza Adquirida, em tese, basta ser brasileiro. Não dá nem para florear. É assim: se você tem algum dinheiro, isto já basta para estar no grupo de risco. Sem exagero, falo por experiência própria. E acredito que ninguém melhor do que uma vítima da SPA para falar sobre este assunto.
Não nasci rico, mas também nunca estive na miséria até o final dos anos noventa, quando dois importantes fenômenos aconteceram para mudar minha vida para sempre. O primeiro se manifestou aos poucos, sem que eu o percebesse, evoluindo a cada ano, sileciosamente. Começaram a surgir em maior quantidade fios de cabelo branco em áreas da minha cabeça que até então permaneciam cobertas, o que indicava a aproximação do que antigamente chamávamos de "meia-idade", condição que hoje é mais conhecida como morte profissional. O segundo veio de repente com a ruptura do casamento.
Faz-se necessário esclarecer que casamento não se dissolve, não se extingüe, não se desfaz, apenas se interrompe. Você suspende os efeitos do casamento, mas não se livra deles, está sujeito a ser tratado como marido a qualquer momento, se for conveniente para a ex-esposa, principalmente durante o processo de separação ou divórcio e enquanto não for nomeado um substituto.
Voltando ao primeiro fenômeno: as idades que recebem a terminação "enta", e suas derivadas (enta e um, enta e dois, etc.) são, inexplicavelmente, as maiores causas da morte profissional ameaçando até os que ainda estão mais distantes delas, na classe do "inta" (dos 30 aos 39 anos).
Ao revelar qualquer idade que se enquadre nessa faixa, o homem - especialmente - desce a uma condição inferior perante interlocutores mais jovens, e passa a ser visto por eles como "o velho".
— Pô, cara, você viu? O velho chega aqui querendo que eu saiba tudo que ele precisa saber! Tá pensando o quê? Que eu tenho a idade dele?
Este comportamento hostil é a primeira investida para levar alguém à morte profissional. Ser chamado de "velho" por alguém que tem dez anos menos que você provoca uma sensação que parece cada vez mais ridícula à medida que você se torna mais velho. E se torna mais absurda ainda quando se é casado com uma mulher dez anos mais moça. Mas, isto também será motivo de comentários durante uma longa fase de sua vida, até que ambos sejam realmente velhos e a diferença não seja notada.
O peso desse tratamento não é tão grande quando a palavra "velho" é substituída por outras, de conotação mais carinhosa, como "tio". Aliás, este é um exemplo que surge mais cedo na vida do homem. E, não raro, pode vir até de pessoas mais velhas:
— Ô, tio, posso tomar conta do seu carro?
Aí começam as vantagens de ser pobre: "— Não tenho carro, meu filho!" - respondo sarcasticamente.
Quanto ao segundo fenômeno - a ruptura do casamento -, este dispensaria explicações, todo mundo sabe que as mulheres conseguem sair de um relacionamento com uma larga margem de vantagem sobre seu parceiro. Entretanto, justifica-se uma abordagem deste tema, no meu caso, dada a sua importância para que eu me transformasse num pobre. Até porque tenho mais experiência que muitos neste aspecto, pois já enfrentei duas separações.
Há outros meios para se tornar pobre, e eles serão, merecidamente, abordados ao longo deste trabalho. Entre eles está a pseudo-bondade, que é fruto de uma confusão mental que nos faz acreditar que a generosidade nos assegura um lugar especial no céu, para depois de nossa passagem, levando-nos a poupar o sacrifício de terceiros e nos entregar totalmente às suas conveniências.
Convido-os a continuar a leitura nos próximos capítulos.
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0. Quarenta é o limite. Mas, de quê?
Quando eu era jovem ouvia os mais velhos dizendo que a vida começava aos quarenta. Muita coisa mudou desde então: valores, conceitos, hábitos, leis, a educação, o ensino, a condição da mulher em relação à sociedade, o sistema de governo... E, é claro, eu e minha idade. Talvez acreditasse realmente que minha vida teria um começo verdadeiro quando alcançasse a marca dos quarenta anos, embora não estivesse insatisfeito com o que já vivera antes deles. Me casei, experimentei a paternidade duas vezes, me separei, perdi três empregos, e me via cada vez mais experiente e com mais coragem para recomeçar sempre que fosse preciso.
A vida, no entanto, é surpreendente. Ela nos reserva surpresas que jamais sonhamos.
Aos quarenta anos eu deveria ter alcançado minha plenitude profissional e emocional, a estabilidade financeira e a tranqüilidade necessárias para dar às minhas filhas a segurança que nos falta quando ingressamos na fase adulta, quando preparamo-nos para enfrentar a concorrência do mercado de trabalho, esforçamo-nos para conquistar um diploma universitário e começamos a enfrentar sozinhos novos desafios. No entanto, aos quarenta anos eu havia acabado de me separar, dei início a um arrojado projeto comercial sem ter um centavo, fui morar numa obra inacabada, tive meu carro roubado e descobri que meu maior erro foi ter ultrapassado a marca dos trinta e cinco sem chegar a lugar algum. Ou melhor, na verdade consegui realizar muitos planos antes disto, mas, graças aos princípios morais e à sensibilidade que me foram transmitidos, me tornei um sujeito generoso e permiti que levassem tudo. Afinal, eu acreditava que poderia reconquistar tudo outra vez.
De acordo com os conceitos de antigamente, os homens assumiam todas as obrigações da família enquanto as mulheres, dependentes deles, cuidavam das tarefas domésticas, mas, com todo o conforto os homens pudessem lhes proporcionar, incluindo no mínimo uma empregada. Não sei quem inventou isso. Aprendemos que os índios saem para caçar e suas mulheres fazem todo o trabalho pesado. Por que não seguimos essa tradição?
Bem, as mulheres declararam sua independência, e o fizeram em todos os sentidos. Conquistaram o mercado de trabalho, até nas mais estranhas profissões, aceitaram salários mais baixos, decretaram a liberdade de fazer o que quisessem sem dar satisfação a ninguém e assumiram o controle, sem esquecer o remoto – da TV. Pregavam a igualdade dos sexos, mas defenderam somente aquilo que lhes era conveniente, as vantagens. No restante continuaram esperando que abríssemos a porta do carro e lhes cedêssemos o agasalho nas tardes de frio, que nos lembrássemos de todas as datas comemorativas e tivéssemos disposição para ir ao supermercado aos sábados, que cuidássemos da manutenção doméstica e do carro para que elas pudessem curtir seus passeios com as amigas. Não importa se passaram dos quarenta, elas souberam se impor.
Pelas leis trabalhistas da época em que comecei a trabalhar, eu devia estar aposentado desde os 48 anos. As leis foram alteradas para que isto se torne impossível em qualquer idade. Acho que devo dar graças a Deus, pois eu morreria de tédio se não tivesse o que fazer.
É importante que a vida não seja monótona, não vire uma rotina sem paixão. É fundamental alimentar sonhos e esperanças, definir novas metas e lutar para alcançá-las, e pretendo fazer isto até o fim dos meus dias. Mas, deixam?
Não consigo entender o desprezo dos mais jovens pelos que acumularam experiências fantásticas e podem lhes ensinar alguns segredos. No meu tempo, quando um idoso entrava num ônibus não lhe faltava lugar. Hoje vejo a garotada usando fones de ouvido e mochila nas costas, mantendo seus olhos fechados, fingindo que não enxergam os que já têm seus cabelos brancos. E não pára por aí. Gerentes de Recursos Humanos já foram bem francos me dizendo que não há vagas para quem tem mais de 35 anos, a menos que seja para funções secundárias, com salários irrisórios, pois "aposentados não precisam ganhar bem".
A grande virada depende de cada um de nós. "O caminho é a autonomia", dizem os especialistas recomendando que todos se transformem em consultores e palestrantes. Porém, esquecem que o mercado é limitado. Além disso, é necessário mais que a simples vontade para tanto, é preciso ter talento, perfil, conhecimento, ousadia, preparo, desinibição e mais uma tonelada de qualidades que não se adquire da noite para o dia. Profissionais são forjados ao longo de uma vida, não nascem prontos.
O mais importante é que nos sintamos jovens por mais tempo, jamais velhos demais para recomeçar ou continuar trilhando o caminho que escolhemos. Temos que manter nossas cabeças funcionando, despertar nossa criatividade para podermos inventar ou reinventar alguma coisa.
Não é preciso usar peruca ou pintar os cabelos, fazer uma cirurgia plástica ou usar roupas que nos deixem ridículos, basta nos sentirmos bem com o que somos e fazemos. E amarmos isso.
A vida pode começar aos quarenta, aos cinqüenta, aos oitenta... Quem renasce é você, com a vantagem de não ter que esperar nove meses. A vida começa todos os dias, sempre com mais bagagem. Por isso, que se danem os jovens com sua empáfia, sua cegueira, sua ambição. Eles que quebrem a cara. Um dia chegarão aos quarenta, e pode ser que encontrem as mesmas dificuldades que estão criando hoje para nós, os "velhos", mas com pelo menos uma desvantagem: sem conhecer os valores e conceitos que se perderam entre nossas gerações. Pois, se hoje são assim é porque nós os fizemos desse jeito, escondendo deles o que nos era mais valioso.
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